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"Eli, Eli Lemá sabachtáni?" Mt 27,46

Algumas emoções nos colocam como que, de alma despidos. Assim nua, se torna leve, transparente como as lágrimas salgadas que banham nossos corpos e vão para o mar... que se transforma nesse oceano a nos cercar em ilhas isoladas de nossos sentimentos e da vida que se torna estranha, vítima de preconceitos, da solidão e do medo.

Esse jovem morreu: de fome, de sede, de solidão, na selva fria que invade nossas almas solitárias de pais, de filhos, netos, sobrinhos, parentes e vítimas de uma sociedade que, decadente, a cada tempo se vê assim: órfã de sentimentos, de amor, de paz e segurança.

História  banal: filho que se perde, seja na mata real ou das grandes cidades; seja numa mata real, ou na mata de nossos pesadelos (drogas, violência, roubos, prostituição, perda da auto estima e falta de crescimento pessoal, profissional). Um pai que não desiste, apesar de tudo e de todos, igual a nossas esperanças que, apesar de fracas, permanecem sussurrando, em nossos ouvidos e corações, mantras que de nós emanam, elevam e dissolvem nossos pesadelos e nos dão forças para resistir e não morrer. Enquanto nos apartamentos de concreto, pais jogam seus filhos pelas janelas, esperando que, como anjos pequenos, amparados por asas divinas, alcem o vôo mais belo em direção ao um poente iluminado, e não cheguem ao chão de nossas ruas com os corpos feridos, machucados por olhares invisíveis que fingimos não existir.

" Ele lutou muito com tudo que eu ensinei pra ele da mata, ele resistiu até onde ele pôde resistir. Quando eu encontrei, quando ele morreu nos meus braços, eu acho que ele disse: 'Eu tô em casa'. Ele quis falar comigo, mas não aguentou mais", contou o agricultor Edilson dos Santos, pai de Jonatha, emocionado, ao "Jornal Hoje".

Imagino o sorriso e a confinaça que esse pequeno homem teve ante a visão de seu pai. Sua esperança, de que seu pai não iria desistir de procurá-lo até encontrá-lo, fez com que ele resistisse, assim como nossa esperança em Deus. Sorriu com todas as suas forças, estava em casa, nos braços do pai e já não tinha mais medo. Fechou os olhos para descansar apenas um pouco, enquanto os olhos de seu pai se embaçavam em quentes lágrimas banhando o corpo de seu frágil e precioso filho, muito amado, estendido na cruz da existência.

Somos todos um pouco deles e de sua história e assim seremos sempre: personagens a preencher a cada dia, linhas traçadas por Deus nestas terras sem fim. Basta um olhar, uma força, um querer ou apenas um desejo: não desistir nunca e o amor. Esse, o principal motor de nossas ações, pois amando, tudo podemos fazer (Sto. Agostinho) e com certeza se não mudarmos o mundo, será apenas o início de uma nova era. O amor daquele pai que não desistiu de encontrar o filho e foi de certa maneira recompensado por seu último sorriso aumenta em nós a crença de que nem tudo está perdido, pois ainda restam centelhas de esperança, dessa esperança que não morre nunca sozinha, porque espera pelo Pai. Ainda não é o fim. Deus sorri. Fiat Lux...

Carlos Rodrigues Franco - domingo, 6 de julho de 2008 - 14h39min.



- Postado por: Carlos às 16h39
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DESALENTO...

   

 

Existem dias nublados em nossa alma. Dias em que

nossos olhos marejam, enchem-se de lágrimas:

quentes, ardentes e abundantes. São salgadas essas

lágrimas a molhar-me a face que vejo no espelho tão

nova, no viço da idade e juventude. Mas, as lágrimas,

essas amigas tão frequentes, me mostram além do

espelho e vejo um rosto enrugado e cansado, sem o

vigor e sem os sonhos que teimam em brincar com

nossas vidas. Às vezes, olhamos nossas vidas

sorridentes e a todos o olhar engana, num sorriso, num

gesto, numa palavra... Quanta dor nos causa essa

máscara: são espinhos como os da coroa de Cristo em

nossa alma, sangrando lentamente e deixando marcas

e cicatrizes que sentimos, não vemos e que nos

matam, numa morte lenta, dolorida, silenciosa... Sem

que haja remédios ou esperança que nos cure. São

como o câncer da alma a enraizar-me pelo corpo e

estancando-me o grito, a dor a sufocar-me o peito, a alma

a esmagar-me lentamente o ser que julgo infinito, pois

mesmo nesse lento definhar permaneço inteiro, todo

dor, lágrimas e sofrimento.

Quisera ser poeta, descrever em versos, desmanchar-me

em palavras, sonetos ou canções. Quisera ser

criança e não crescer, eterno Peter Pan a voar e a

brincar livre entre estrelas. Quisera poder brincar na

lua, jogar estrelas, viajar nos cometas, navegar por

mares, conquistar ilhas, descobrir novos mundos e

viajar por eles. Quisera esquecer-me de tudo e de

todos e não sofrer: entender de que daqui nada

levamos, a ser a vida que vivemos e tirar de minha

alma, esse peso, essa dor e esse medo que preenche

meus dias de lágrimas que anuviam meus olhos,

cegam-me o coração e afogam minhas esperanças.

As lágrimas que agora caem, silenciosas, quentes e

ardentes, não molham esse papel ou essa tela, não

molham seu olhar triste ao ler estas letras que falam

de tanta dor e miséria, são apenas sombras de tudo

que escrevo, névoas a sair de minha mente e que

molham lentamente essas palavras com sangue vivo a

sair-me da alma. Estas não são simples palavras de

um triste poeta. São gritos surdos, fortes, de uma alma

inquieta. Surgem do lamento de um triste escravo,

acorrentado a seu fardo, num velho navio lançado ao

mar, em triste porão de infindas existências, a sonhar

com sua carta de alforria, com o verde céu de sua

pátria e com os belos olhos de sua amada, com a brisa,

as flores, e as borboletas, com a vida, enfim, roubada

lentamente, lançada ao sabor de ondas em ondas que

levam este navio negreiro, a portos desconhecidos,

longe de todos os nossos pensamentos, mas que

acenam com promessas de tesouros e liberdade. Essas

promessas se confundem com a triste realidade e

desfazem-se rapidametne como as espumas do mar.

Procurei o amor que não era meu, vivi a vida que não

sonhei, sonhei os sonhos que não pude ter, fui sombra

de mim e não vivi... Sinto-me como um mar morto,

solitário e salgado, miragem para incautos viajantes,

sombras de um Deus que não encontro, névoa densa

que a brisa leva... Meus sentimentos dissipam-se no

ar, insistem em não dissolver e retornam em forma de

lágrimas. Como réu de um perpétuo castigo, sigo por

eternos caminhos, já tão gastos por outros

caminhantes, mas sei que sigo solitariamente em meio

a tanta gente, que me olha a face e não enxerga a

alma: Ser vagante, sem eira nem beira, vou em frente,

como um zero absoluto, querendo meu retorno, minha

volta a minha simples existência em busca da origem,

do esquecimento, um nada, um vazio e nada mais.

 

Carlos Rodrigues Franco - Domingo, 23 de abril de 2006

 



- Postado por: Carlos às 10h32
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