
![]() ![]() ![]() |
Meu perfil BRASIL, Sul, JOINVILLE, Mulher, de 15 a 19 anos |
|











Contador:

HISTÓRIAS DE UM LAVRADOR III
Espio pela janela de meu coração e vejo sombras que se adensam, que colorem e se transformam em memórias. Vivas memórias, que o tempo me rouba de mansinho, pois somos assim: frágeis e fortes, criadores e criaturas, vivemos o presente, lembramos do passado e sempre sonhamos com um futuro que virá certamente, seja da forma em que sonhamos ou não. Abro as folhas de minhas anotações como uma criança que abre os olhos no amanhecer de um novo dia: O barulho no fogão a lenha indica que meu pai termina o café, antes de ir para o curral retirar o leite.
Existem coisas sagradas que vamos aprendendo com o tempo, mesmo em tão tenra idade: paciência é uma delas. Então espero que ele saia para correr , lavar o rosto, pegar uma caneca de esmalte branco, colocar um pouco de café e, com cuidado, ir à busca do leite. Pequeno, mal consigo abrir a porteira. Aguardo meu irmão mais velho que, entre uma vaca e outra, recebe-me com o novo bezerro, que faminto também quer um pouco do leite. Entramos quase juntos e seguimos destinos opostos. “Sua benção”, “Deus lhe abençoe”, “dormiu bem”, “bastante”, “quer tentar tirar seu leite?”, “quero”. Minhas pequenas mãos, desajeitadas, bem que tentam em vão e por fim com suas mãos sobre as minhas caem algumas gotas do leite branco em minha caneca, o barulho assemelha-se a chuva forte sobre o telhado. “Deixa que termino, toma seu leite e vá estudar um pouco”. O leite preenche toda a caneca, espuma branca que desenha bigodes que sonhamos ter nessa idade. Tomo uma caneca e pego mais uma, e sigo para a cozinha, onde minha mãe cantarola entre panelas e me serve bolachinhas de natas assadas, no forno à lenha, no dia anterior. Um gato enrola-se em minhas pernas em busca de um afago e um alimento, olho à minha volta e vejo tudo bem grande, na extensão do mundo de uma pequena criança a explorar isso tudo, sem saber que um dia essa frágil fumaça desvanecerá em lágrimas, e tudo será como um sonho, ou uma doce melodia na canção ou até mesmo inspirados poemas a lembrar da infância e nada mais.
Minha doce mãe, tão forte e tão jovem que faz de tudo um pouco na lida diária: tece nossas roupas com destreza e carinho, busca água na bica e enche tinas para o abastecimento da casa, coze os alimentos que as mãos hábeis de meu pai vão semeando na roça. Dali também sairão também o leite pra ser entregue na distribuidora, e o restante com que faremos o queijo e a manteiga. Algumas tarefas divididas com a responsabilidade para cada um. Assim fazemos nossa história, humilde história que tem um início, como tantas outras e que segue um destino agora nas memórias deste lavrador. São doces memórias, como as reuniões festivas na colheita do milho e na feitura de pamonhas, quando, nós, pequenos, ficávamos a descascar o milho e retirar os cabelos; os maiores ralavam o milho, as mães separavam as palhas boas e preparavam o queijo, já os homens faziam o fogão, buscavam a lenha e o mantinham bem aceso. Também aproveitavam para “pitar” um pouco, trocar um pouco de prosa e informações sobre a lavoura e o gado, enquanto grandes tachos de água fervente coziam por horas, as quentes pamonhas, depois devoradas avidamente pelos mais afoitos e divididas entre as famílias. Grandes almoços em família, todos reunidos em volta da mesa farta, animais famintos e crianças correndo... Lembranças de um tempo feliz e sem tanta violência. Lembranças que se fazem sementes, que anseiam pela terra de minhas recordações para assim renascerem. Mas, parecem fadadas a ficarem lá, num passado distante, pois, hoje, a luz elétrica, a água encanada, a televisão e todos os outros confortos só fazem famílias pequenas e pouco unidas, diminuíram distâncias e encurtaram diálogos. Trocaram o serviço pesado por um mais leve, mas mal remunerado. Densas nuvens, eu vejo no céu de minha cidade, sobre a cabeça de jovens que, com tudo facilitado, não querem mais nada, nem sonhar. Banalizaram o amor e esqueceram-se dos sonhos de nossas ascendentes: um mundo melhor para todos. Melhor no sentido de ser e não, de ter, pois misturamos esses conceitos e nos perdemos em algum lugar dessa evolução. Mas onde?!
Carlos Rodrigues Franco - sexta-feira, 21 de abril de 2006 – 17h54min.
:Layout Exclusivo Templates-by-Brothers ao The Best Blog:.