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HISTÓRIAS DE UM LAVRADOR IV


Observo no balançar da charrete, nos passos mansos do “bainho”, na lentidão da paisagem bucólica e empoeirada que nos leva à cidade, os tons que colorem minhas letras que vão borrando este papel. Meu velho pai, com as rédeas nas mãos, mantém-nos seguros nesse doce balançar. Minha doce mãe ensimesmada segura-me ao colo e por vezes acaricia-me os cabelos que a brisa matreira despenteia. Essa estrada, tão velha e batida, tem a idade de todas as estradas e por ali passaram meus avôs, bisavôs e até outros mais. Eu vejo sombras nessas longas estradas, vejo flores de tons diferentes. Alguns pássaros assustados voam em bandos, outros cantam melodias que nossos ouvidos captam e transformam tudo isso num lindo fundo musical que minha memória, agora se encanta, resgata e transborda em lágrimas a molhar essas páginas.
As rugas, que transformam os rostos de meus pais, são as mesmas curvas dessa velha estrada que transformam as poeiras e que aos poucos voltam ao solo, deixando no ar a beleza de uma paisagem que lentamente vai se modificando: como poemas que o vento vai trazendo em nossas mentes, confundindo-se nas entrelinhas de nossos pensamentos. A cidade é para todos nós uma festa: carros, pessoas, lojas, doces, compras, visitas, sorrisos, roupa e sapatos novos, missa e tudo mais... Rouba-nos sem querer da pureza original de nossa infância de e nossos sonhos. O ar transforma-se e, acostumados, nem notamos que a melodia já não é a mesma: é mais corrida, barulhenta e menos melódica e as pessoas menos sorridentes e apressadas. Ao final do dia, tudo isso serão apenas meras lembranças na volta para casa, e novamente nos enchemos com os sons familiares, que, aos poucos, nos embalam e muitas vezes adormecemos em colos tão amados de nossos pais ou no meio das mercadorias que vão abastecer a dispensa, fonte de nossas gulas e tentações, enchendo a casa de aromas, rumores e muita festa.
O chicote, por vezes batido na estrada, é o som conhecido de nosso “bainho” para aumentar o passo, antes que o sol se ponha e as estrelas venham a brincar no céu. Em breve, o bainho é solto, e corre para o pasto verde, deita, rola e se farta com tamanha saudade, como nós de nossos brinquedos esquecidos por uma tarde, mas que, em nossa ânsia, parecem dias e esquecemos de tudo, até que uma voz ao longe nos chama para ajudar a guardar as compras e para o banho. A água aquecida pela serpentina é nosso maior luxo, não se comparando com as lamparinas a querosene que alumiavam nossas noites e faziam, de nossas sombras, pássaros, borboletas e tudo mais. Após o jantar, sentávamos a mesa a jogar palitos e ouvir no rádio algumas canções que o tempo esqueceu, mas que permanecem em nossas memórias reproduzindo o fundo musical de nossas recordações. Eu, criança caçula, tinha o privilégio do doce colo da avó, na taipa do fogão, que em noites frias aquecia, com as brasas, o corpo e a quentura do colo da avó, a alma. Restam hoje apenas lágrimas saudosas de uma senhora silenciosa, que nos contava pequenas histórias de um mundo de seu tempo, entre pitadas de um cigarro de palha que enrolava com mãos trêmulas e cansadas e tão leves para nos dar carinho.Agora tudo é fumaça que o tempo levou. Tinha ainda a reza do terço quando, todos na sala repetíamos unidos o que o tempo mais tarde separaria levando uns para longe, outros para perto, porém dispersos nessas terras sem fim, abanhadas pelo sol que brinca com sua amada num jogo de esconde, esconde, dia após dia, noite após noite, num romance que só se concretiza quando se encontram num eclipse e podem se amar por alguns instantes. E nessa sucessão de tempo também se vão os nossos sonhos, que aos poucos vão se desvanecendo na lentidão dos momentos sem amor.
A noite caía enfim, sobre nossa humilde casa da roça. Ao redor dela tudo era um breu, céu estrelado, vaga-lumes e animais noturnos a vagar, os cães que hora dormiam e ora ladravam, as galinhas empoleiradas e a neblina que a madrugada adensava. O vento corria solto, pois a noite é seu refúgio, até parecia visível e brincava nas folhagens. E nós, adormecendo, entrávamos agora em outros mundos: mundos distantes e voávamos,enquanto lá dentro, o calor de muito amor se espalhava por todos os cômodos Aquecidos e protegidos pelo amor, sentia-se até no ar o calor a irradiar daquela simples casa encravada num vale tão verde e profundo, parecendo ao longe as pupilas do Criador. Fecho meus olhos e adormeço, sonhando com tempos sem tempo certo, com o que foi o meu passado, que criou esse presente e que agora semeia um futuro, letras a eternizar esse poema, soneto sem rimas a versejar sobre a vida, versos sem fim de um lavrador criança a sonhar com um mundo melhor, suaves letras a brincar neste papel e nada mais.

Carlos Rodrigues Franco - sexta-feira, 5 de maio de 2006 – 18h26min.



- Postado por: Tais Melissa às 20h22
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