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A menina e a rosa

Ela era uma menina urbana que vivia a trilogia da casa, escola e shopping - situação típica das capitais brasileiras. Na cidade em que morava não havia muita área verde e, as que existiam, pareciam campos de futebol: um gramado imenso com poucas árvores.
Andando pelas ruas do centro, inalando as fragrâncias menos desejáveis - sobretudo dos ônibus e automóveis -, encontrou um pequeno jardim que ficava entre o muro e a calçada de um prédio abandonado, que no passado foi sede de um centro cultural. No jardim havia um pouco de mato e lixo, mas entre o descaso e o caos sempre há uma saída: a resistência de uma rosa.
A menina nunca tinha visto uma rosa. Aliás, nem sabia que existia. Na escola só ensinavam as partes de uma árvore: raiz, tronco, folhas e frutos. Rosa que é bom, nada. Nem precisa dizer, mas já dizendo, que ela ficou encantada com a beleza tão peculiar da rosa. Grande, vermelha e cheia de espinhos, formando uma cena de saborear aos olhos.
Todos os dias a menina via por duas vezes a rosa: na ida e vinda da escola. Ela fazia questão de ir à pé, contrariando a mãe que disponibilizava um motorista para seu percurso escolar diário. A cada dia era retirado do jardim um pouco do lixo amontoado, tornando a rosa mais visível aos transeuntes do centro. Na saída, depois de regar a rosa, a menina levava o lixo coletado para uma destinação adequada.
O tempo foi passando e finalmente não havia mais lixo no jardim. A rosa já estava mais crescida e muito mais bela, devido à rega periódica. A família da menina conhecia a rosa, mas achavam besteira nos dias de hoje alguém ainda cuidar de um jardim, regar uma rosa.
Certo dia a menina estava tão feliz com o crescimento e beleza da rosa, que quis abraçá-la e, ao apertar os espinhos, “ai!”: ela se feriu. Pouco tempo depois a rosa não estava mais naquele jardim. O ferimento da menina não parava de sangrar e, quanto mais lembrava da rosa, mais sangrava.
Foram dias, meses e anos de angústia e dor, buscando pelo menos rever a rosa pela última vez. O sofrimento aumentava cada vez que passava por aquele jardim, como também o ferimento havia se tornado parte da sua vida, sem jamais parar de sangrar.
Indo em direção à escola, a menina estava desatenta e seguiu por outro caminho. Faltando dois quarteirões do término do seu trajeto, ela olhou para uma lanchonete e avistou um jarro com uma flor. Correu desesperadamente até que… “a rosa! A minha rosa!” - parou, feito estátua, admirando por horas e horas a beleza que há tanto tempo não via.
A menina continuou seu deleite diário até o dia em que a rosa murchou. Hoje ela continua admirando a rosa, mesmo sabendo que não pode mais vê-la, nem tocá-la.
(Desconheço a autoria)
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